24a Bienal de SP: Percurso entre memórias e uma narrativa sonora

Foi na visita à Bienal de São Paulo em 1998. Fiquei sabendo que um dos trabalhos expostos no Pavilhão era um walkman que a gente deveria colocar e aí acontecia a obra. Depois de mais de 6 horas exaustivas, vendo trabalhos do mundo inteiro dentro de um ambiente barulhento e quente, cheguei ao guichê onde se pegava o tal do walkman. O responsável me dirigiu ao ponto inicial da obra, pediu que eu colocasse o fone de ouvido, e apertou o play. Foi surgindo uma voz feminina: ‘Está vendo esse vidro na sua frente? Coloque sua mão nele. Eu me lembro que era frio…’ E aí começava uma das experiências mais marcantes que já tive como espectador de uma manifestação artística.

A voz feminina me convidava a um passeio: ‘Por favor, vamos andar um pouco. Siga-me pela escada…’ E eu podia ouvir os sons dos passos daquela voz, como se ela fosse realmente uma pessoa convidando para um passeio. A narrativa do walkman ia alternando direções que se devia tomar e memórias daquela personagem-voz. O grande lance é que as lembranças dela muitas vezes coincidiam com a minha experiência física em andar seguindo os passos da voz. Ela me guiou até a parte externa do Pavilhão da Bienal. E a narrativa extremamente poética seguia. ‘Cuidado com a bicicleta’, a voz avisava – e não é que estava passando uma bicicleta mesmo. ‘Que cheiro ruim, vamos mais pra perto daquela árvore.’ Chegava a um ponto, em que a narrativa se confundia tanto com a experiência física de estar andando ali no bosque do Ibirapuera que às vezes parecia que o que eu estava vivenciando eram exatamente as lembranças narradas. Muitas vezes parecia que aquela voz era parte do meu inconsciente ou que aquela personagem que narrava suas lembranças, depoimentos íntimos e revelações estava a meu lado, vendo tudo que estava se passando.

O fato é que essa obra convidava os espectadores a mergulhar de tal modo no universo onírico de memórias de uma personagem fictícia que proporcionava uma experiência única. Só o fato de sair por um tempo do Pavilhão da Bienal para dar um passeio, vivenciando uma obra sonora depois (ou como intervalo) da avalanche de obras plástico-visuais, limpava os sentidos de tal modo, que parecia que a minha percepção voltava a funcionar, o equivalente a um banho para o corpo.

Se dispor a participar de uma obra não-convencional, sem conceitos prévios de um único modelo fixo de arte, que pudessem impedir ou reduzir a experiência estética de ser espectador-participante. Se deixar levar pela obra. A obra demonstrou a importância de se ‘dar um tempo’, de dar uma pausa no turbilhão de informações e estímulos da vida urbana para que se ‘limpe’ a percepção (os sentidos).

A obra demonstrou várias possibilidades: 1) de deslocar o espectador através do poético ou do inusitado como forma de sensibilização; 2) de participação efetiva do espectador; 3) do uso do áudio como elemento principal de uma experiência sensível; e 4) de uma síntese da realidade virtualmente criada pela obra (áudio + narração) com a realidade física do espectador (aspectos táteis e olfativos presentes no percurso proposto pela obra eram ressaltados pela narrativa).

*Esse relato se refere à experiência de mergulhar na obra Walks [Caminhadas] de Janet Cardiff, apresentada na 24a Bienal de SP.

**Texto escrito em 2002.