Abandono poético: descarte, circulação e acaso

1. Poemas anônimos em praça pública

Na década de 1990, em Belo Horizonte, certa vez me deparei com um pequeno exemplar de um livro intitulado “Anônimos”. Não estava numa livraria, nem numa biblioteca, mas no banco de uma praça. Sentei ao lado daquele pequeno livro e, antes de pegá-lo, esperei um tempo para ver se a pessoa que tinha perdido a publicação voltaria. Depois de momentos de espera, como ninguém apareceu, peguei o livro e comecei a manuseá-lo.

O livro parecia ter sido produzido artesanalmente. Me lembrou as edições mimeografadas das publicações marginais das décadas de 70/80. No caso daquele volume que estava em minhas mãos, ao invés de impresso em um mimeógrafo, talvez tenha sido feito em uma máquina fotocopiadora ou uma impressora laser. Além da cara artesanal, quase caseira, havia um ar experimental em seu projeto gráfico, encadernação e acabamento. Na verdade, eu tinha acabado de encontrar uma caprichada publicação independente.

Na contracapa, encontrei as seguintes palavras que me indicaram que talvez aquele livro não tivesse sido perdido, mas  deixado ali propositalmente, uma doação ao acaso, como uma garrafa jogada ao mar:

“estas nascerem para ser
palavras ao vento…
sopre-as a gosto
em setembro
ou
como
f(l)or”

Cada página do livro tinha um poema. Em nenhuma parte da publicação havia qualquer referência a quem seria o autor dos textos ou quem teria editado aquele livro.

Meses depois, um amigo encontrou uma outra edição de “Anônimos”, dessa vez numa cabine telefônica da rodoviária de Belo Horizonte. Esse amigo que já tinha ouvido de mim a história do meu encontro com o pequeno impresso, e tentando achar alguma pista sobre quem estava povoando a cidade com impressos anônimos, procurou saber com as pessoas que estavam ali por perto se alguém tinha visto quem havia usado a cabine antes dele. A única coisa que conseguiu descobrir era que um homem alto e careca tinha passado por ali. Circulando pela rodoviária, nenhum sinal do abandonador de livros.

Eu e esse amigo nos encontramos um dia para comparar as edições do “Anônimos” e vimos que o formato, número de páginas, acabamento e até mesmo seu conteúdo era diferente. Apenas as inscrições da capa e contracapa eram iguais. Um ou outro poema se repetia, o restante se diferenciava em tudo. Especulamos que as edições de “Anônimos” deveriam ser feitas de tempo em tempo, em pequenas tiragens artesanais e que os exemplares seriam cuidadosamente abandonados em locais públicos da cidade.

Só tive notícia de mais uma outra história de “Anônimos” e me vinha um sorriso no rosto sempre que me lembrava dos poemas daquele livro, da despretensão das palavras que ele continha e de seu “sistema” de impressão e distribuição faça-você-mesmo.

2. Atentados poéticos: um chamado global

Anos mais tarde, no segundo semestre de 2003, recebi um email com um convite. Faltavam alguns meses para se completar um ano da colisão de aviões nas torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque e o mundo ainda estava atordoado – até hoje muitas facetas daquela colisão ainda não foram esclarecidos e a chamada “Guerra ao Terror” justificava uma série de violências e invasões a países árabes. O email que recebi tinha sido amplamente divulgado ao redor do mundo, era a tradução de uma mobilização-convite vinda da França para que todos que quisessem se aventurar, realizassem silenciosos atentados poéticos:

“no próximo dia 11 de setembro, sair à rua com um livro, dedicado a um desconhecido, abandonar este livro em um parque, um bar, um lugar público, para que seja encontrado como se fosse um presente”.

Será que aquele editor anônimo de Belo Horizonte tinha se mudado para a França e estava articulando abandonos poéticos de publicações em escala global?

Ao abandonar um impresso, inúmeras possibilidades se abrem. Qual será o próximo destino daquela publicação? As mãos de um leitor atento? A biblioteca de um colecionador compulsivo? Os olhos de quem precisa matar o tempo até o próximo compromisso? Uma estante empoeirada? Uma sala de espera de dentista, na triste companhia de revistas semanais de meses atrás?

III. Bookcrossing: liberte seus livros e acompanhe para onde vão

Talvez não exista qualquer relação entre as pessoas que organizaram as iniciativas acima. Ou talvez nosso personagem-editor tenha ainda inspirado (ou mesmo co-organizado) a existência do Bookcrossing (www.bookcrossing.com), um site que estimula pessoas de todo o mundo a “libertar” seus livros em locais públicos e, através de um sistema de rastreamento, permite acompanhar as idas e vindas de cada publicação: onde e quando foi abandonado, onde foi encontrado e para onde está indo. O percurso de cada livro é quase uma pequena narrativa construída entre inúmeras possibilidades de encontro e abandono. Livros viajando ao redor do mundo, em rotas construídas continuamente.

*Texto escrito para a revista Piseagrama #5. Publicado originalmente em 2012.